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17/06/2009 - Artigo
Por: Sérgio de Paula Santos
Por Especialista
Riesling
Dos cursos sobre vinhos de que temos tomado conhecimento, a maior parte se nivela – bastante teoria, alguma tecnologia e pouca prática. A exceção são os cursos do Deutsche Weininstitut, DWI, Instituto Alemão do Vinho, nos quais a parte prática e a degustação dos vinhos predominam. Comparam-se os sabores de vinhos de diferentes variedades de uvas, das mesmas uvas variando o tipo de solo, das mesmas uvas e solos, variando porém o grau de maturação das uvas, etc., etc.. São oportunidades muito importantes para os que se iniciam no conhecimento dos vinhos.
Com relação às variedades de uvas, as informações prestadas nos cursos do DWI são as mais completas possíveis. Justamente por isso, certa vez, ao se abordar a variedade Riesling, uma das mais importantes não apenas na Europa, mas em todo o mundo, por maldade indagamos sobre a procedência da Riesling, que, sabemos, não é conhecida. O conferencista, que não teria como nem poderia responder à pergunta capciosa, recorrendo a terceiros, encontrou uma explicação etimológica.
Na realidade, a origem da Riesling é uma das maiores incógnitas da viticultura. São várias as suposições, nenhuma solidamente fundamentada. Em 1852, o historiador francês J. L. Stoltz publicou em Mulhouse a alentada obra Ampélographie Rhénane, em que pretende seja a Riesing originária do vale do Loire. A hipótese, sem qualquer base, nunca foi levada em consideração. Também os austríacos pretendem seja a variedade originária de seu país. Um documento de 1301 cita um vinhedo de nome “Ritzling”, no Wachau, próximo à aldeia de Joching, e mesmo hoje existe na região um povoado de nome Ritzlingbach. Não existe entretanto qualquer evidência de que o vinhedo de Ritzling fosse de vinhas Riesling. A primeira referência concreta à variedade é de 1435 e trata-se de uma fatura subscrita pelo Conde de Kazenellenbogen de videiras Riesling, plantadas em Russelheim, às margens do Meno, próximo ao Rheingau. Seguem-se um documento de 1465 de Trier, no Alto Mosela, e um de 1490, de Worms, no Rheinhessen. Para alguns, a denominação proviria de “Rusling” sendo “Rus”, madeira escura, referência à colocação dos caules, ou de “Rissling” sendo “Rus”, madeira escura, referência à colocação dos caules, ou de “Rissling”, de “rissig”, rachado (do verbo “reissen”, rasgar, rachar), também referência ao córtex dos caules, rachado.
Discussões e etimologias à parte, tem-se hoje como o mais provável que a Riesling é originária de uma vinha silvestre, domesticada na Idade Média, no vale do Reno, em algum ponto entre Koblença e Worms. Foi entretanto apenas no século XVIII que a variedade se difundiu no vale do Reno e nos de seus afluentes. São inúmeras as referências à Riesling naquele século e no seguinte, principalmente na obra de F. Bassermann-Jordan, Geschichte dês Weinbaues, História da Viticultura, Frankfurt, 1906, 2 vols, 1361 p. (cuja última edição é de 1991), a mais completa obra sobre a história da vitivinicultura já publicada.
Em 1721 o Schloss Johanisberg, no Rheingau, é a primeira propriedade em que se instala a monocultura varietal de Riesling. Seguem-se outras, e esse fato é de grande importância pois sabemos que o delicado aroma característico da variedade não se faz sentir em presença de apenas 5% de outras variedades aromáticas. Foi também no Schloss Johanisberg que em 1775 ocorreu a “descoberta” casual dos vinhos botritizados, de colheita tardia, tipo Trockenbeerenauslese. O mensageiro do bispo que autorizaria o início da colheita atrasou-se, e quando da vindima as uvas já estavam botritizadas, passificadas. Resultou dessa colheita um vinho excepcional, mas a rotina de selecionar e escolher as uvas passificadas só se estabeleceu em 1783.
Na região do Mosela, a Riesling começou a se destacar no final do século XVIII e início do XIX, quando da secularização dos vinhedos da Igreja. Mesmo assim, a Riesling só veio a predominar na região no início deste século e os primeiros Trockenbeerenauslese do Mosela só apareceram em 1921. Lembre-se que a primeira legislação vinícola alemã que classificou os predicados dos vinhos (Spätlese, Auslese, Beerenauslese e Trockenbeerenauslese) data de 1892.
Na Alsácia a Riesling só vem a ter alguma difusão também no início deste século. A primeira referência à variedade na Alsácia aparece na Dissertation Du Vin, Strassbourg, 1716, de J. P. Jung, que a cita como “a nova vinha trazida do Reno”. Em 1893 Babo e Mach, no Handbuch dês Weinbaues, Manual de Viticultura, informa que “muito pouca Riesling se encontra na Alsácia”. Tão-somente em 1919, quando, após a grande guerra, a Alsácia voltou a fazer parte da França, a variedade se expandiu no país, onde ainda assim ocupa apenas 3.000 há, menos de 1% do vinhedo nacional.
Lembre-se que a maior área cultivada de Riesling pertence à Ucrânia, com 28.000 ha, seguida da Alemanha, com 22.000 há, sendo entretanto a produção alemã superior em 300 mil hl, de 1,8 milhão hl contra 1,5 milhão da Ucrânia. Afora nesses dois países, todos os vinhedos de Riesling são relativamente pqeuenos: 5.400 ha nos Estados Unidos, 5.000 ha na Austrália, 3.000 ha na França, na Alsácia como vimos, 1.250 ha na Áustria, 300 ha na Nova Zelândia e apenas 100 hectares na Itália, menos de 0,01% do vinhedo nacional, de cerca de 1,3 milhão de ha. Entre nós a produção de Riesling em 1990 foi de 502 toneladas de uvas. Se considerarmos que cada hectare rende em média 10 toneladas, teremos a modesta cifra de 50 hectares plantados de Riesling (num vinhedo de 60.000 ha), que correspondem a cerca de 300 mil litros anuais.
Vemos assim que de um modo geral a Riesling é uma variedade relativamente pouco difundida, com vinhos de aroma delicado, pouco alcoolizados, leves, frutados, pouco encorpados e de alta qualidade. De colheita tardia, adapta-se bem aos climas frios, propiciando a possibilidade de vinhos doces naturais, botritizados.
Dos Riesling que conhecemos, sempre nos agradaram os do Rheingau, do Médio Mosela e os do Wachau austríaco. Recentemente provamos alguns da Nova Zelândia, na Feira Internacional de Colônia, Anuga, das empresas Rongopai, de Te Kauwhata, e Dry River, de Martinborough, muito interessantes.
Dizem os especialistas que o futuro da vinicultura na Austrália e na Nova Zelândia estaria na Riesling. De fato, com a atual tendência de uma alimentação mais leve, os vinhos Riesling, secos ou não, parecem se os mais indicados para acompanhar a cozinha moderna.
Se levarmos em conta que em matéria de vinhos a quantidade sempre se contrapôs à qualidade, mais ainda se sugerem os Riesling. Pena que disponhamos de tão poucos Riesling verdadeiros e não possamos confiar na variedade “Rótulo Riesling” dos vinhos brancos com nomes alemães, onipresentes.