26/06/2009 - Artigo
Por: Sérgio de Paula Santos
Por Especialista
Vinho Submarino
Desde que o homem se aventurou a navegar pelos rios, lagos, mares e oceanos, suas embarcações e barcos submersos, bem como suas cargas e conteúdos, têm sido motivo de curiosidade, buscas e resgates. Dos barcos egípcios e fenícios às galeras romanas, das embarcações vikings aos galeões espanhóis, portugueses e holandeses, dos navios alemães e americanos afundados na Segunda Guerra Mundial aos modernos transatlânticos, vários têm sido procurados e alguns mesmo resgatados. Além do interesse histórico, buscam-se principalmente os objetos de valor, os “tesouros” submersos.
O Museu do Cairo possui um belo barco antigo retirado do leito do Nilo, o museu naval de Hilerod, próximo a Copenhagen, a mais perfeita embarcação viking conhecida, e ao tempo de Mussolini resgataram-se algumas galeras romanas intactas dos lagos do norte da Itália. Recentemente, em 1987, documentou-se de maneira brilhante o enorme transatlântico “Titanic” (46.000 toneladas), naufragado em 1912 e localizado próximo à costa da Terra Nova, a 3.800 metros de profundidade.
A respeito do “tesouro” do Titanic, já comentamos (in Vinho e Cultura, Melhoramentos, 1989) que possivelmente não se trate das jóias abandonadas pelos tripulantes, mas sim do vinhos de sua adega, fotografados no leito do mar pela expedição franco-americana que localizou o barco mais de meio século após o naufrágio.
A mais recente notícia sobre resgate de embarcação submersa, de agosto, 1993, refere-se ao submarino alemão U-534 afundado em 1945 no mar Báltico, três dias antes da rendição da Alemanha nazista, em 8 de maio daquele ano. O submarino, de 77 metros de comprimento, que deslocava 1.100 toneladas, foi bombardeado por um avião britânico Libertador próximo à costa dinamarquesa. Como em tantos outros barcos, também no U-534 acreditava-se que o submarino transportava ouro e obras de arte que os dirigentes nazistas pretendiam levar para a América do Sul, onde iniciariam uma nova vida. A hipótese tinha algum fundamento, pois o submarino era equipado com os mais modernos motores da época, concebidos para grandes travessias.
Dos 52 tripulantes do U-534, apenas 3 morreram e quando o barco foi trazido à superfície, 48 anos após o afundamento, oito desses tripulantes presenciaram com grande emoção o resgate. A seu lado estavam também quatro dos aviadores do bombardeiro que afundou o submarino. O resgate foi organizado e financiado pelo empresário dinamarquês Karsten Ree, que gastou na empreitada 3,2 milhões de dólares. Na opinião dos tripulantes do submarino, seria encontrada no barco apenas uma grande provisão de batatas (não fossem alemães), além de muita munição e cigarros. Contavam também que dois dos compartimentos do submarino, a sala do rádio e o alojamento dos oficiais, haviam sido selados antes da tripulação escapar e não deveriam estar inundados. Apesar do tempo decorrido e de estar o U-534 com a popa submersa na lama do fundo do mar, o estado do barco era bastante bom, podendo-se ainda reconhecer restos da pintura original, estando mesmo seus 15 torpedos ainda em condições de serem disparados.
O que se encontrou no submarino até o momento foi, entretanto, bem prosaico: uma centena de camisinhas de origem francesa, um binóculo, um pedaço de queijo, um cachimbo, várias garrafas de vinho e uma grande quantidade de cuecas... Não podemos aqui deixar de lembrar nosso bom amigo Guilherme Figueiredo, que num de seus livros de gastronomia diz que “o queijo Münster tem cheiro de cueca de alemão”...
É pouco provável que num futuro próximo venhamos a saber mais detalhes sobre o carregamento do U-534, como quais os vinhos encontrados, sua procedência, etc., pois o empresário dinamarquês, pretendendo reaver o dinheiro investido, tem impedido o acesso da imprensa e de outras pessoas ao barco, tendo intenção de fazer contratos vantajosos com os meios de comunicação de maior expressão. Outra intenção de Karsten Ree é tornar o submarino uma espécie de museu da Segunda Guerra Mundial, numa cidade qualquer da Dinamarca, como fizeram os americanos em Pearl Harbor, num de seus navios mais danificados no ataque aéreo japonês de 1941.
A propriedade, entretanto, do que foi encontrado no submarino e do que venha a ser achado não será pacífica. Tanto Ree como o governo dinamarquês e a própria Alemanha, herdeira legal do Terceiro Reich, pretendem a posse do “tesouro” do U-534. Possivelmente, como no caso do “Titanic”, o “tesouro” do submarino deverá ser seus vinhos. Enquanto estes não vêm à tona, ficam-nos a curiosidade e a expectativa – quais serão sua procedência, tipo, safra e se ainda se mantêm potáveis.
Ficam também claros no episódio o papel e a importância do vinho na vida do homem. Levado pelo mundo afora nas ânforas gregas e romanas, nos tonéis galeses, nas pipas das caravelas e dos galeões dos Descobrimentos e em todos os barcos de todas as partes e de todos os tempos, o vinho sempre acompanhou o homem. Da antiguidade ao U-534, e hoje nas companhias aéreas, o vinho é presença obrigatória, sem o qual o homem não se desloca, na terra, no mar e no ar.
Ao que parece, o vinho não é entretanto apenas um bom companheiro de viagem, mas um elo, uma memória sensorial entre o ponto de partida e o de chegada do viajante, entre a origem e o destino do homem.