As AOC em discussão na França
José Maria Santana, de Paris

Terminada a colheita, que se estendeu a meados de outubro nas principais regiões francesas, o vinho novo permanece nas cubas de aço inox, onde passou pelo agitado processo de fermentação. Mas uma agitação maior acontece fora das caves. Preocupados com a queda nas vendas e as perdas de sua fatia no mercado mundial, os franceses discutem o futuro de seu sistema de Appellations controlées. O debate é apaixonado, como tudo o que se refere à gastronomia no país. Muitos consideram o processo de classificação de vinhos muito rígido e arcaico. Outros acham, ao contrario, que a estrutura das AOC é que garante a personalidade e a identidade do vinho francês. Tudo indica que não vai haver grandes mudanças. Mas parece que finalmente a França está abrindo os olhos para não ser ultrapassada pelos concorrentes do Novo Mundo, especialmente EUA, Austrália, Chile e África do Sul.

Os indicadores de que a liderança francesa poderia ser ameaçada apareceram ha tempos, mas só agora efetivamente se acende o sinal de alerta. A imprensa local abre espaço para a polêmica. Há algumas semanas, a prestigiosa revista "Le Revenu", dedicada ao mercado de ações da França e às finanças, destacou que o setor vinícola poderá ter o mesmo destino que a Alta Costura francesa. Nos últimos dois anos, as exportações de tintos e brancos tiveram queda de 7,4% e quase todas as grandes empresas operam com prejuízo. O vinho francês esta no vermelho! Mesmo na Grã-Bretanha, tradicionalmente seu principal mercado, houve abalos. Há alguns anos, os produtores dos países emergentes tinham apenas 4% das vendas na Inglaterra. No ano passado, a participação de EUA, Austrália, Chile e África do Sul já era muito maior: pulou para 37%.

Os especialistas atribuem o recuo da França no mercado tanto a problemas internos (os rótulos de seus vinhos são inexpressivos e as empresas investem pouco em marketing) quanto à agressividade dos concorrentes, especialmente americanos e australianos, que gastam muito para atrair novos consumidores. Os Grands crus de Bordeaux e da Bourgogne demoram a reagir e se comportam como se fossem imunes aos problemas. Na verdade, os principais buracos de caixa aparecem na faixa dos vinhos de qualidade média, que formam a maior fatia do mercado. "Nuvens escuras se acumulam", previu Jacques Berthomeau, do Ministério da Agricultura francês e autor de um relatório recente, que provocou polêmica no país, ao expor os prejuízos e as mazelas do setor vinícola nacional. "Estamos no estágio do artesanato e temos um grande problema de competitividade", alertou ele. Na Alta Costura, as sofisticadas casas francesas perderam espaço para o prêt-à-porter italiano. No caso do vinho, parece que os grands crus, de preço elevado, destinam-se a uma clientela restrita, enquanto o grande mercado internacional de vinhos médios é abastecido pelos gigantes do Novo Mundo.

O sistema de Appellations Controlées francês surgiu em 1936, para garantir que cada vinho seja a melhor expressão de seu terroir, de seu local de origem. As regras são rígidas quanto à produção autorizada por hectare, indicação das castas permitidas e forma de vinificação. Quem controla tudo é o INAO, o Institut National des Appellations d'Origine. O presidente da seção de vinhos do instituto, René Renoux, é contra qualquer mudança na estrutura legal. Para ele, nenhum produtor é obrigado a respeitar as leis da AOC. Quem quiser ficar fora, pode elaborar vinhos com uvas não autorizadas ou manter um corte diferente do indicado. "É só produzir bons Vinhos de Mesa", diz Renoux, referindo-se aos tintos e brancos classificados no patamar abaixo das AOC. Mas ao optar por esta liberdade, prossegue Renoux, o produtor vai se responsabilizar também por qualquer prejuízo por estar fora do guarda-chuva protetor do sistema tradicional.

Uma das queixas dos novos consumidores em todo o mundo é que os rótulos dos vinhos da França informam pouco e não mencionam a uva predominante em sua composição. A ausência é até explicável: para os franceses, trata-se de uma informação óbvia e, como tal, não precisa ser explicitada. Afinal, qualquer conhecedor sabe que um tinto da Bourgogne é produzido com Pinot Noir e que no corte dos Bordeaux haverá Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc. Mas o que é obvio para os entendidos, pode ser um completo mistério para o consumidor comum. Mesmo na França, o preço elevado é outra barreira que afasta o comprador médio dos grandes vinhos. Neste aspecto, começam a ganhar algum destaque na imprensa francesa alguns tintos e brancos incluídos pela legislação na categoria abaixo das AOC. São os vins de pays.

Até agora considerados os primos pobres da vinicultura nacional, por serem classificados no patamar inferior ao das AOC, os vin de pays não são fruto de um terroir específico e sim de uma região mais ampla. Mas têm boa qualidade e um atrativo extra, o preço acessível. Entre os mais conhecidos estão os vinhos do Pays du Jardin de France e do Charentais (Vale do Loire), Côtes de Gascogne (Sudoeste), Ille de Beauté e Var (Provence), Herault e d'OC (Languedoc-Roussillon), da Ardèche e do Vaucluse (Vale du Rhône). Sem a restrição das AOC, muitos deles trazem no rótulo, além da indicação geográfica, também o nome da casta principal. Começam a ganhar espaço vinhos como Moulin de la Touche Chardonnay 2000 e Domaine de Pierre Blanche Sauvignon 2000 (Jardin de la France), Atrium Georges Vigouroux Malbec 1999 (Pays du Lot, Sudoeste), Domaine Bunan Mourvèdre 200 (Pays du Mont-Caume, Provence), Domaine La Michelle (Bouches-du-Rhône), Domaine de Gournier Rouge 1999 (Pays de Cévennes, Languedoc-Roussillon), Domaine de la Monardière e Domaine du Vieux Chêne (Vaucluse, Vale do Rhône). Nos supermercados locais, estes vinhos custam menos de 35 francos, o que corresponde a cerca de 5 dólares.

A discussão, na França, vai longe. Muita uva certamente ainda vai passar pelas cubas. Mas parece ao menos que os franceses perceberam que precisam de um sopro de vida nova para não perder sua confortável posição no mercado. Não deixa de ser uma boa notícia para quem gosta de vinho.


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