A descoberta do Languedoc-Roussillon
José Maria Santana

Durante muito tempo na França, e a rigor ainda hoje para o francês médio, "vinho do Midi" significou vinho comum, principalmente o "gros rouge", o tinto ordinário presente em qualquer refeição dos operários, até mesmo no café da manhã. Produzidos em massa, sem preocupação com a qualidade, eram a marca dos vinhedos do Languedoc-Roussillon, no sul do país. Mesmo os "vinhos doces naturais", outra característica da região, não tinham muito prestígio e eram até chamados de "cozidos".

Somente nos últimos anos, graças ao esforço de uma nova geração de vinhateiros, o Languedoc e o Roussillon estão conseguindo mostrar que, em meio a esse mar de "vins de table", também produzem tintos e brancos de grande personalidade e que merecem ser descobertos. Aliás, é o que estão fazendo produtores famosos de outras regiões, que resolveram investir no Midi, como Robert Mondavi, Philippine de Rotschild ou a gigante australiana BRL Hardy. Para o consumidor, uma atração a mais são os preços, já que a região oferece bons produtos numa faixa de até R$ 60.

Como se sabe, o Languedoc-Roussillon compõe com o Sudoeste, no mapa vinícola francês, os "vinhedos do sol", assim chamados por se situarem no ensolarado sul do país. Esta expressão é até mais fiel à realidade no caso do Languedoc-Roussillon, que ocupa toda a costa mediterrânica e se estende às planícies e áreas montanhosas do interior, em direção a Carcassonne, e também ao sul, onde faz divisa com a Espanha. Contando tudo o que produz, tem mais vinhedos do que nenhum outro local da França - mais de 380 mil hectares plantados, 38% da superfície ocupada pela vinha no país! Mas vamos falar aqui apenas de vinhos finos, provenientes de denominações controladas.

Levando em conta este critério de qualidade, o Languedoc e o Roussillon possuem 40 mil hectares de vinhedos, de onde saem em média 1,8 milhão de hectolitros por ano (só para estabelecer a comparação, Bordeaux fornece 5,6 milhões de hectolitros). Os tintos predominam, com 83% da produção, enquanto os rosés representam 11% e os brancos, 6%. O Midi vinícola cobre os Departamentos de Herault, Gard, Aude e Pyrénées Orientales. O clima é quente e seco, com chuvas raras e irregulares, além de ventos constantes. A mistura de influências oceânicas e montanhosas atenua os efeitos da seca.

Os solos podem ser xistosos, calcários, argilo-calcários. O terreno, irregular e acidentado, dificulta a mecanização. O cultivo é em grande parte manual. As uvas locais típicas têm maior espaço que as cepas vindas de outras áreas. Para os tintos, as castas básicas são a Carignan, Grenache Noir, Cinsaut, Mourvèdre e Syrah. A Carignan é a mais plantada, produzindo vinhos em grande quantidade e sem personalidade. Por isso, cresce no corte a participação das outras uvas mediterrânicas. Nos brancos aparecem a Grenache Blanc, Maccabeu, Bourboulenc, Clairette e Picpoul.

Para o vinho tinto, talvez mais que o ano da safra, que lá não tem a mesma importância do que para outras zonas vinícolas, conta o método de vinificação. No caso dos vinhos jovens, frutados, ganha espaço a maceração carbônica, bastante comum em outra área famosa, a do Beaujolais. Os cachos são colocados inteiros, em grandes cubas, onde sofrem uma espécie de fermentação interna, que valoriza os aspectos aromáticos. Já os tintos provenientes da vinificação normal são mais robustos, carnudos.

Na década de 1970, havia na região apenas duas denominações de origem para vinhos tintos, Fitou e Collioure. Hoje, com seguidas promoções, há 13 AOCs no Languedoc-Roussillon e duas VDQS, a categoria imediatamente abaixo, o que demonstra - pelo menos estatisticamente - o salto de qualidade dado pelas vinícolas locais. A região tem tudo para progredir, a começar da tradição.


Influência catalã

Dizem os historiadores que o vinhedo do Roussillon, implantado pelos gregos no século VI a.C., é provavelmente o mais antigo da França. A colônia grega primitiva instalou-se nas terras hoje tomadas pela cidade de Marselha, plantando uvas em torno da foz do rio Rhône. A expansão da vinha aconteceu com os romanos, que construíram Narbonne, a primeira grande cidade erguida na Gália. O vinho ali produzido era bom, como registrou Plínio, o Jovem, no primeiro século de nossa era.

A partir da Idade Média, a cultura espanhola, especialmente a catalã, deixou fortes marcas na vinicultura do Midi francês. No caso dos tintos, por exemplo, as duas principais uvas do Languedoc e do Roussillon também são bastante comuns na Espanha: a Grenache é a popular Garnacha, chamada de Canonau na Catalunha, de onde é igualmente oriunda a Carignan (Cariñena). Nos séculos XVII e XVIII, consolidou-se a monarquia francesa. Mas no mundo do vinho, as atenções se voltaram para Bordeaux.

Nessa época, Colbert, ministro de Luís XIV, mandou abrir o Canal Real do Languedoc, para ligar o Mediterrâneo ao Atlântico. O Canal do Midi, com 240 km, foi bom para o crescimento do Languedoc - mas não para a vinicultura local. Aos poucos, as planícies languedocianas foram plantadas com a prolífica e medíocre uva Aramon, para produzir vinho barato em grande quantidade e álcool industrial.

Começou a se formar aí a imagem de fornecedor de vinho ordinário que acompanha o Midi até hoje. No século XIX, com a chegada dos trens a vapor e a expansão industrial, saiu desta região um mar de tintos sem marca, o "vinho proletário", destinado a abastecer os cada vez mais numerosos operários das grandes cidades francesas. A produção em massa era garantida pelas cooperativas, cujas vinhas ocupavam as planícies. No final deste mesmo século veio a crise, a devastação dos vinhedos pela filoxera - por sinal, a praga que ataca a raiz da videira entrou na Europa pelo Midi, em 1864. Passado o perigo, o Languedoc-Roussillon voltou a produzir maciçamente seu vinho barato.

Esta situação pouco mudou até duas décadas atrás. O especialista Luiz Rezende, um dos sócios da importadora paulista Saveurs de France, aponta que o despertar do Midi para vinhos de qualidade aconteceu depois de alguns eventos recentes, como o estimulo financeiro oferecido pela Comunidade Européia para a substituição das vinhas medíocres por viníferas de padrão superior. Além disso, na França, como em outros países, as pessoas passaram a beber menos vinho e se tornaram mais exigentes.

Neste pano de fundo, entrou em atividade uma nova geração de vinhateiros conscientes, que começou a produzir seu próprio vinho, ao invés de entregar as uvas às cooperativas, como faziam seus pais. Esses jovens, recém saídos das escolas de enologia, voltaram sua atenção para as antigas áreas vinícolas situadas nas encostas, há muito desprezadas em prol da facilidade do cultivo das planícies. "Aos poucos, as zonas recuperadas foram se tornando Denominações Controladas, com sensível reordenação e melhoria dos crus tradicionais", diz Rezende. Um dos pioneiros foi Olivier Julien, que convenceu o pai, Marcel, a vinificar suas uvas, na sub-região de Montpeyroux.


As apelações do Languedoc

Nesta vasta porção da França, a diversidade de solos e de microclimas resulta em inúmeras denominações. Como em qualquer outro lugar, e aqui mais ainda, pelo apego às quantidades, é sempre bom conseguir referências sobre o produtor. Com 7.300 hectares de vinhedos, a apelação Coteaux du Languedoc é uma espécie de guarda-chuva, que inclui 12 crus, cujo nome pode completar a AOC - Cabrières, La Mejanelle, La Clape, Montpeyroux, Picpoul-de-Pinet, Pic Saint-Loup, Quatourze, Saint-Christol, Saint Drézéry, Saint-Georges-Orques, Saint Saturnin e Vérargues.

Michel Bettane e Thierry Desseauve, autores do respeitado guia de vinhos franceses "Bettane & Desseauve", destacam que há bons produtos na região, especialmente tintos. Entre os terroirs com maior potencial eles destacam Pic-St-Loup, que oferece tintos com boa concentração de cor e estrutura, mas finos; e Montpeyroux, terra de grandes Syrah. Já em Picpoul, pequena apelação litorânea, e em La Clape, as estrelas são os brancos.

Outra apelação marcada por tintos sólidos, robustos e característicos do tradicional estilo mediterrânico é Saint-Chinian. Tem 2.700 hectares de vinhedos que se estendem por encostas e socalcos pedregosos. Em Faugères, 1.700 hectares situados nos contrafortes das Cevènnes, com solos xistosos e influência montanhosa, nascem tintos que Bettane e Desseauve consideram "mais elegantes que os vinhos tradicionais da região".

Quem aprecia tintos carnudos pode procurar os rótulos de Minervois, apelação com 4.500 hectares plantados com Grenache, Syrah e Mourvèdre. Esta característica também aparece nos tintos de Fitou, denominação com 2.300 hectares, divididos em duas áreas distintas, litoral e interior. Foram os primeiros vinhos do Languedoc a terem denominação de origem reconhecida, em 1948. É uma zona com bom potencial, mas seu desenvolvimento não é uniforme, tendendo às vezes para tintos muito robustos e alcoólicos.

Nestas zonas tradicionalmente dedicadas aos tintos, os brancos e roses são incentivados. É o que acontece em Corbières, a maior AOC do Languedoc. Com 14 mil hectares de vinhedos, tem solos diversificados e microclimas que originam vinhos com diferentes tipicidades - embora com altos e baixos do ponto de vista da qualidade.


Os vinhedos do Roussillon

Para tintos e brancos, a maior denominação é Cotes du Roussillon, com 4.800 hectares plantados. Está voltada para o Mediterrâneo, rodeada pelos maciços de Canigou, Corbières e Albères, e tem grande variedade de solos - calcário, argilo-calcário, xisto, gneiss, areias graníticas e terraços de aluvião. Predominam os tintos (80%), em geral potentes, a partir das castas tradicionais Grenache, Carignan, Cinsaut e a catalã Lladoner Pelut.

Atualmente, ganham espaço novidades como a Syrah e Mourvèdre. No passado, muitos agricultores erradicaram a rústica Carignan, o que hoje muitos lamentam. É interessante notar que, particularmente para a fermentação da Carignan, usa-se cada vez mais a maceração carbônica - a mesma utilizada para a fermentação do leve Beaujolais Nouveau.

Outra apelação é Cotes du Roussillon Villages, com 2.000 hectares. Seu forte são tintos produzidos nas vertentes áridas de Agly. São vinhos encorpados, tânicos, que demoram a abrir. Qatro "terroirs", por sua especificidade, podem acrescentar seu nome à denominação: Caramany, Latour de France, Lesquerde e Tautavel. O mais fino é Latour de France.

Para os tintos, deve ser mencionada ainda a denominação Collioure. Com apenas 290 hectares de vinhedos, divide espaço com a famosa apelação Banyuls, produtora de vinhos doces naturais. Collioure está voltada para o mar. Oferece tintos quentes e potentes, bem como rosés perfumados e refescantes, ambos à base de Grenache Noir.


Os vinhos doces naturais

Cerca de 96% dos vinhos de sobremesa franceses são produzidos no Languedoc-Roussillon. São os chamados vinhos doces naturais, cujos vinhedos ocupam 21.700 hectares, com uma produção de 560 mil hectolitros por ano. Antes de mais nada, é preciso esclarecer que estes vinhos, ao contrário do que o nome indica, recebem a adição de aguardente vínica, que corta a fermentação e permite ao vinho guardar seu açúcar natural. É a mesma técnica empregada para a produção de vinhos famosos, como o Madeira, Jerez e o Porto - com a diferença de que na mistura há mais vinho e menos álcool.

O Roussillon reivindica a primazia no uso deste processo, também conhecido como mutagem. Em 1208, Arnaldo de Vilanova, médico do rei catalão Jaime II, descobriu que acrescentando aguardente ao mosto, poderia interromper a fermentação. A aguardente vínica é produzida em alambique, equipamento que entrou na Europa pela porta da Catalunha, trazido pelos Templários que voltavam da primeira Cruzada.

Os VDN (Vinhos doces naturais) podem ser tintos ou brancos. No Languedoc-Roussillon distinguem-se dois grandes grupos de VDN. Um deles inclui os vinhos produzidos com a uva branca Muscat, rapidamente engarrafados e consumidos jovens, para que se aprecie a frescura da uva. O outro se refere aos vinhos que estagiam em meio oxidante. Eles só atingem sua maturidade depois de envelhecer em grandes tonéis ou em garrafões de vidro deixados ao ar livre.

No grupo das apelações que privilegiam a perfumada moscatel, temos Muscat de Rivesaltes, AOC com 4.500 hectares, cujos vinhos são produzidos a partir da uva Muscat de pequenos bagos ("à petits grains"), com um corte da Muscat de Alexandria, que lhe agrega frescor. O Muscat de Frontignan, com 790 hectares plantados, também é produzido com a Muscat de bagos pequenos. Completam o time três pequenas denominações - Muscat de Lunel (295 hectares); Muscat de Mireval (260 ha), que ocupa a vertente sul do maciço de Gardiole; e o Muscat de Saint-Jean- de- Minervois (140 ha), com vinhedos implantados sobre as planícies calcárias de Haut-Minervois.

Há ainda a imensa AOC Rivesaltes, com 10.800 ha, incluída recentemente em um plano do governo francês que estimulava a erradicação de espécies medíocres. Situa-se no Roussillon e numa pequena parte das Corbières. Oferece VDN tanto brancos (Muscat, Maccabeu e Malvoisie), quanto tintos (Grenache). Uma denominação especial, Rivesaltes Rancio, é reservada para vinhos envelhecidos, que apresentam o aroma oxidativo típico.

Outro grupo de Vinhos Doces Naturais reúne as apelações Banyuls e Maury. Situados no extremo oriental dos Pirineus, perto da fronteira com a Espanha, os vinhedos do Banyuls e Banyuls Grand Cru (1.500 ha) são plantados em socalcos xistosos, como os do Douro, onde nasce o Porto. Ali a uva Grenache é submetida a condições extremas e produz vinhos generosos. Diz-se que são dos raros vinhos capazes de fazer companhia ao chocolate.

A Grenache Noir comparece com no mínimo 50% nos Banyuls comuns e com 75% nos Grand Cru. O vinho comum deve ser comercializado no mês de setembro seguinte à sua vinificação. O Grand Cru, por lei, estagia no mínimo 30 meses na madeira e só é produzido nas grandes safras.

Já o Maury ocupa 1.720 ha no vale de Agly, em terreno xistoso, onde a casta Grenache dá vinhos potentes e aveludados - mas normalmente, menos complexos que os Banyuls. A legislação exige mínimo de 70% de Grenache Noir e permanência de pelo menos 12 meses na madeira.


Espumantes

Em 1.800 hectares plantados no Vale do Aube, em uma zona de colinas que se beneficiam das influências climáticas do Atlântico e do Mediterrâneo, situa-se Limoux, região bastante conhecida pela qualidade de seus espumantes produzidos a partir das castas brancas Mauzac, Chardonnay e Chenin. Eles se apresentam em duas denominações diferentes.

Blanquette de Limoux é elaborado pelo "método tradicional", em que a segunda fermentação é feita na garrafa. Privilegia a casta local típica, a Mauzac, e é naturalmente doce. Já o Crémant de Limoux surge de um corte das três uvas e também ganha suas bolhinhas pela segunda fermentação na garrafa. Existe ainda a AOC Limoux, destinada a vinhos brancos tranqüilos.


Os "vins de pays"

Os vinhos comuns, não provenientes de denominações controladas, são classificados como "vin de pays" e, na categoria mais simples, "vin de table". O Languedoc-Roussillon é o maior fornecedor francês de tintos e brancos nestas duas faixas. Mais de 60% dos vinhos de Mesa e "vins de pays" saem dos departamentos de Aude, Gard e dos Pirineus Orientais. Há mais de 60 denominações diferentes!

Alguns viticultores também optam por rotular seus produtos como "vin de pays", para terem a liberdade de utilizar outras castas além das autorizadas para a apelação ou para fugir à camisa de força da legislação. Talvez o melhor exemplo seja o da vinícola Mas de Daumas Gassac (representada aqui pela importadora Mistral). Pioneira na nova fase do Languedoc, recebeu assessoria do grande enólogo Émile Peynaud. Seu tinto mais famoso leva 80% de Cabernet Sauvignon e chega ao mercado como "Vin de Pays de l'Herault". É mais um sinal do renascimento do Midi.


O que há no mercado

Por coincidência, a revista "Gula" de março organizou uma prova especial de tintos do Languedoc-Roussillon encontrados no mercado brasileiro. É uma boa oportunidade para o consumidor se familiarizar com as marcas e conhecer algumas das opções à sua disposição. A degustação apresenta ainda um painel do que se pode encontrar em suas diferentes sub-regiões.

Na prova especial, foram avaliados 14 vinhos. São eles o Domaine des Ardoises/AOC Fitou (importado pela Wine House); Château de L'Horte/Corbières (Terroir); Domaine de Sainte-Rose Cuvée Laetitia/Servian (Decanter); Abbots Boreas/Coteaux du Languedoc (La Pastina); Mas de la Barben/Coteaux du Languedoc (Expand); Château Tour Boisée/Minervois (Sabores da França); Les Roques/Vin de Pays d'Oc (Cellar); Domaine des Salices/Vin de Pays d'Oc (Wine House); e Magellan Ponant/Côtes de Thongue (Terroir).

E ainda Château de Gourgazaud La Livinière Réserve/Minervois (Allfood); Domaine Galtier/Côteaux du Languedoc (Club du Taste Vin); Guilhem Moulin de Gassac/L'Herault (Mistral); Château Saint-James/Corbières (Expand); e Domaine Cazes/Côtes du Roussillon Villages. É uma amostra didática, bastante variada no estilo e nos preços.



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