Verdes para os dias de calor
José Maria Santana

Nos últimos anos, o consumidor começou a despertar para os benefícios do vinho. Mas motivado pela propaganda e pela divulgação de qualidades antes não imaginadas, como as vantagens da bebida para a saúde, voltou sua atenção mais para os tintos, em detrimento dos brancos. Quem faz isso, na verdade, está se privando de muitos prazeres oferecidos pelo vinho. Para os apreciadores, cada tipo de vinho tem seu momento, a sua hora. Nada mais gostoso, por exemplo, do que tomar um branco gelado em um dia quente de verão. Neste capítulo, cabe um destaque especial para o Vinho Verde português, que já teve seus dias de glória em nosso mercado e agora anda um tanto esquecido.

O Verde, produzido na região do Minho, noroeste de Portugal, entre a fronteira com a Espanha e a cidade do Porto, é um vinho muito leve, normalmente com menor gradação alcoólica, bastante acidez e aroma frutado. Por suas propriedades naturais, especialmente o elevado teor de ácido lático, é refrescante, ideal para as épocas mais quentes do ano, preferencialmente para acompanhar refeições à base de saladas, peixes e frutos do mar. Sua marca registrada é a presença de um pouco de gás que sobra da fermentação, ou é adicionado, e que parece fazer cócegas na boca. É o que se chama a "agulha" dos Vinhos Verdes, elaborado somente com uvas típicas portuguesas. Deve ser tomado a uma temperatura entre 8 a 10º C e o mais importante: é um vinho para se beber jovem.

A origem do nome Vinho Verde é controversa. Não há uma explicação única, mesmo entre os especialistas. Alguns dizem que a denominação se deve à paisagem característica do Minho, onde a vegetação é intensa, frondosa e sempre verdejante. Mas a maioria dos autores associa o nome às condições das uvas locais. É que elas dão origem a vinhos juvenis, com elevada acidez e baixo teor alcoólico. Um vinho que não amadurece como os demais. Assim, o nome Vinho Verde seria um contraponto ao que popularmente em Portugal se chama de vinho maduro.

Seja lá como for, o Verde existe nas versões branco e tinto. Este último, algo rústico e adstringente, é mais apreciado em sua terra de origem, acompanhando os pratos fortes da culinária local. Não caiu no gosto internacional, como o branco, exportado para mais de 80 países. No Brasil a oferta de Verde branco é vasta e o produto facilmente encontrado nos supermercados e lojas especializadas. Há vinhos com diferentes perfis, desde os mais simples e populares, como Casal Garcia, Gatão, Casalinho e Acácio, até o nobre Palácio da Brejoeira, elaborado com a uva Alvarinho. Atualmente, ganha espaço também a proposta de um vinho mais moderno, feito com uvas de uma só casta, como o Trajadura, da vinícola Quinta da Aveleda.


A região e sua história

Portugal é o único país do mundo com direito a produzir o Verde. Este vinho tão característico nasce na área entre os rios Douro e Minho, conhecida como Entre-Douro-e-Minho. Estende-se por todo o noroeste do país, tendo como limites a norte a fronteira espanhola da Galiza, a leste e a sul as montanhas do Gerês e do Marão, que fazem a separação natural com o interior luso, e a oeste, o Oceano Atlântico. É uma região com belas paisagens, vegetação exuberante, e a mais populosa do país, onde se concentram 20% dos portugueses.

Em suas terras, a cultura da vinha é antiga. Remonta à época romana. Os vinhos dessa parte da Lusitânia são mencionados por Plínio, Sêneca e outros autores de Roma. A partir do século XII aumentam as referências, especialmente ligadas aos mosteiros e corporações religiosas. O cultivo permaneceu incipiente até a expansão alcançada depois dos grandes descobrimentos marítimos. A designação "Vinho Verde" aparece pela primeira vez no século XVII, mencionada em um documento da Câmara da cidade do Porto, datado de 1606. Alguns historiadores dizem mesmo que os Vinhos Verdes foram dos primeiros a serem exportados para o mercado europeu, principalmente Inglaterra, Flandres e Alemanha.

Já a Região Demarcada do Vinho Verde foi instituída em 1908 e regulamentada entre 1926 e 1929. A legislação levou em conta as questões de ordem cultural, tipos de vinho, encepamentos, modos de condução da vinha e métodos de vinificação. Pelas variações existentes, foram estabelecidas seis sub-regiões: Monção, Lima, Basto, Braga, Amarante e Penafiel. Atualmente, os vinhedos ocupam 70 mil hectares e correspondem a 15% da área vitícola nacional. Administrativamente, espalham-se por 46 concelhos dos distritos de Viana do Castelo, Aveiro, Porto, Braga, Viseu e Vila Real. As propriedades geralmente são pequenas, às vezes minúsculas.

Na área com direito à denominação de origem os solos são rochosos, com formações de granitos, xistos e gneisses. O clima é influenciado pelos ventos marítimos, com índices de chuva elevados - em média, 1500 mm anuais. Por outro lado, as temperaturas mais quentes durante o ano coincidem com as precipitações mais baixas. Assim, o Minho apresenta em geral Primaveras e Verões quentes e secos e Invernos frios e chuvosos. Mas a principal marca da região talvez seja o tipo de condução da vinha, a maneira como a uva é plantada.


A condução da vinha

Quem viaja pelo Minho logo percebe que a uva está por toda parte e convive com outras culturas agrícolas. As parreiras cobrem as estradas, formam uma espécie de cerca que limita os campos, aparecem nos jardins e disputam espaço com os pés de couve nos quintais. Não se vê casa sem pelo menos um tronco de vide. O que chama mais a atenção são as videiras que se elevam, entrelaçadas nas árvores.

Esta é a maneira mais tradicional de instalação da vinha na região dos Vinhos Verdes. Chama-se uveira ou "vinha de enforcado". Junto a uma árvore, que pode ser um castanheiro, plátano ou choupo, os viticultores plantam uma ou várias parreiras e deixam que cresçam livremente. Com o tempo, os galhos ficam entrelaçados com os ramos da árvore e podem atingir grande altura.

Os "enforcados" deixam espaço para outras plantações, não exigem adubação especial, podas rigorosas ou grandes cuidados. Ainda assim, a economia é apenas aparente, pois o sistema resulta em vinhos de qualidade inferior. Além disso, na época da colheita os trabalhadores precisam usar escadas elevadas para cortar os cachos - motivo de quedas perigosas e muitos acidentes.

Outras práticas ancestrais são os arjões e ramadas. Nos arjoados, os agricultores estendem fios de arame entre as árvores, até a altura de 6 a 8 metros, e deixam a videira subir. O método tem os mesmos inconvenientes dos "enforcados". Já as ramadas são como as latadas existentes na Serra Gaúcha. A vinha se expande na horizontal, entrelaçada em arames que se apóiam em estacas de madeira ou granito. Formam o conhecido caramanchão, que no Minho muitas vezes cobre as estradas de um lado a outro. Permite à uva sobrepor-se a outras culturas, como a da batata, mas o chapéu de folhagem dificulta a exposição dos cachos ao sol, o que prejudica a maturação.

Como se vê, os sistemas tradicionais de plantio apresentam deficiências do ponto de vista técnico. Mas, curiosamente, podem ser considerados um dos responsáveis pelo estilo que consagrou os Verdes como vinhos jovens e com acidez pronunciada. Por causa dos sistemas de condução adotados e da exuberância vegetativa, que provoca ensombramentos e a menor exposição dos cachos ao sol, a maturação das uvas costuma acontecer tardiamente. Outra coisa: na época da colheita, após o equinócio do fim de Verão, as chuvas são freqüentes, o que levava muitos agricultores a antecipar a vindima, para fugir do perigo da podridão dos bagos.

Assim, uvas colhidas antes de atingirem o seu melhor desenvolvimento chegam à cantina com menor concentração de açúcar (e portanto, de álcool potencial) e forte presença de ácidos. O resultado é um vinho leve, com acidez elevada e baixa gradação alcoólica - 8,5 a 11,5% por volume no caso dos brancos normais.

Atualmente, as vinícolas adotam práticas mais modernas, para eliminar as deficiências, mas mantendo a personalidade do vinho. Os novos sistemas de condução permitem que as uvas atinjam melhor maturação. Estes métodos são variações da espaldeira, lá chamadas de bardo, cruzeta e cordão. Basicamente, são estendidos arames a cerca de 1,5 metro de altura e, por meio da poda, leva-se a folhagem e os frutos a se desenvolverem apenas na parte da planta que se apóia sobre os fios metálicos.

A modernização ganhou força na década de 1980. Com a entrada de Portugal na então Comunidade Econômica Européia, o país recebeu recursos para melhorar sua infra-estrutura. No Minho, de 1989 a 1996 foram feitos muitos investimentos na agricultura, com plantio de vinhas novas e replantio de outras, já em bases tecnicamente mais avançadas.


Castas e vinificação

Um dos segredos dos Vinhos Verdes está na seleção de castas, todas típicas da região e portuguesas até a medula - o que dá para ver pelos nomes! Para ter direito ao selo da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes o produtor precisa empregar apenas as uvas recomendadas ou no máximo as autorizadas. Para os brancos, a lista de recomendadas inclui a Alvarinho (também conhecida como Galego ou Galeguinho), Avesso, Azal-Branco (alcunhada ainda de Asal da Lixa, Gadelhudo, Pinheira ou Carvalhal), Batoca, Loureiro, Pedernã e Trajadura (chamada em alguns concelhos de Trinca-dente ou Trincadeira).

As cepas autorizadas são Branco-Escola, Cainho de Moreira, Cascal, Douradinha, Esganinho, Esganoso, Fernão Pires, Lameiro, Rabigato, São Mamede e Semilão. Normalmente o vinho resulta de uma mistura de uvas. Nos últimos anos surgiram no mercado os monocastas, com uma cepa exclusiva ou dominante, com destaque para as uvas Loureiro, Trajadura, Pedernã, Azal e Avesso. Quando a casta é mencionada no rótulo, a legislação exige que represente pelo menos 85% do mosto.

A maioria das vinícolas hoje em dia adota tecnologias modernas na vinificação, com uso do frio para controle das temperaturas durante a fermentação. Nos brancos, o mosto é fermentado depois da prensagem das uvas, portanto sem a presença dos sólidos. Em Portugal, este método se chama "bica aberta" - que se contrapõe ao dos tintos, em que o mosto fermenta na presença das cascas e outros elementos sólidos do cacho, no processo que recebe o nome de "curtimenta".

Para diminuir a acidez das uvas, os produtores costumam recorrer a uma segunda fermentação, a malolática, que transforma o agressivo ácido málico em ácido lático, mais suave. A fermentação também produz o gás carbônico que dá origem ao "pico" ou "agulha dos Vinhos Verdes. Em muitos produtos também há adição de gás carbônico.

O Verde agrada por ser fresco e aromático. Aqui no Brasil muita gente o escolhe para acompanhar o bacalhau - embora seja um pouco leve demais para o prato. Seja como for, é sempre bom lembrar que, como regra geral, é um vinho que não se presta ao envelhecimento. Deve ser bebido até o ano seguinte ao da vindima. Portanto, é preciso tomar cuidado com algumas promoções de supermercado! Às vezes, os comerciantes colocam um preço mais baixo ao perceber que o momento ideal de consumo da bebida já ficou pra trás.


As vinícolas

A produção média anual da região demarcada fica em 120 milhões de litros de vinho (em 2001/2002, ano excepcionalmente fértil, chegou a 180 milhões de litros). Há centenas de pequenos produtores, mas cerca de 90% do vinho são assegurados pelas 20 maiores empregas engarrafadoras. As duas maiores são a Quinta da Aveleda e a Vercoope (aglomerado de uma dezena de adegas cooperativas).

A Quinta da Aveleda, pertencente à família do empresário António Guedes, é uma das principais vinícolas portuguesas. Está instalada na sub-região de Penafiel. A propriedade principal, em Aveleda, que dá nome ao grupo, tem área de 150 hectares, dos quais 120 ha. ocupados pela vinha. Em seu interior se situa o belo Parque da Quinta da Aveleda, uma espécie de bosque/jardim com 15 ha, rodeado por um muro de pedra com 3 metros de altura e plantado com árvores de grande porte. A primitiva residência senhorial foi erguida em 1671, como está indicado na porta da Capela. Passou por reformas no século XIX, que a ampliaram.

Com uma produção anual de 12 milhões de garrafas, a empresa é responsável por 40% das exportações portuguesas de Vinho Verde. Seu campeão de vendas é o Casal Garcia (5 milhões de garrafas). Seus outros brancos são Aveleda, Quinta da Aveleda, Trajadura da Aveleda, Loureiro da Aveleda, Grinalda e Aveleda Alvarinho. Um de seus destaques é o varietal Trajadura, moldado exclusivamente com a uva que lhe dá o nome. Na edição de dezembro passado, a conceituada revista norte-americana "Wine Spectator" atribuiu 85 pontos a este branco interessante e o recomendou a seus leitores como um "Best Value", por oferecer uma ótima relação entre qualidade e preço. No Brasil, os vinhos da Quinta da Aveleda são distribuídos com exclusividade pela importadora Interfood - (11) 3341-7255.

No universo dos Vinhos Verdes cabe uma palavra especial para os brancos elaborados com a uva Alvarinho na sub-região de Monção, onde se acham os concelhos de Monção e Melgaço. A Alvarinho - diminutivo de "alvar", uma referência a alvo ou brancura, no português arcaico - dá origem a vinhos com aroma acentuado e os mais alcoólicos da Região Demarcada, podendo chegar aos 13% por volume. Ao contrário dos demais brancos da apelação, agradece o estágio de um ano na garrafa e pode envelhecer por alguns anos. Por ter características próprias, merece uma denominação específica, o "Vinho Verde Alvarinho".

Uma referência em Alvarinho é sempre o elegante Palácio da Brejoeira, produzido e engarrafado em Monção por dona Maria Hermínia de Oliveira Paes. É representado no mercado brasileiro por Emidio Dias de Carvalho e importado pela Maison du Vin - (11) 3284-7288. Mas há outros nomes de prestígio, por exemplo, o Dona Paterna, de Carlos Codesso, o Deu-La-deu, o Alvarinho Cepa Velha e o Alvarinho da Adega Cooperativa de Monção.

Nas últimas temporadas, dois brancos também chamaram a atenção dos conhecedores. Um deles é o Paço do Teixeró, assinado pela família Champalimaud (conhecida pelo Quinta do Côtto, do Douro). É uma espécie de Verde diferente, fermentado em carvalho. O segundo é o estrelado Alvarinho Soalheiro, bastante elogiado pelos jornalistas portugueses João Paulo Martins e José Salvador e também pela respeitada especialista inglesa Jancis Robinson. Ambos são trazidos ao Brasil pela importadora Mistral - (11) 3372-3400.

Por fim, uma observação. A área dos Vinhos Verdes, além de brancos e tintos de mesa, também oferece cobiçadas aguardentes velhas e bagaceiras, destilados típicos preparados a partir da uva. Estes produtos provenientes da Região Demarcada têm identidade própria e a proteção da lei. São a "Aguardente de Vinho Verde" e a "Bagaceira de Vinho Verde".


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